Edição 182 - Outubro 2012
O Homem de 100 mulheres
Inquieto, incansável, o paulistano Nelson Leirner olha para a centena de mona lisas que criou ao longo de oito meses e não sabe dizer se está satisfeito com o resultado
por Gisele Kato
Foto Daryan Dornelles

Nelson Leirner na galeria Silvia Cintra, no Rio de Janeiro. Seu mais novo trabalho tem inspiração no cinema
Se pudesse, Nelson Leirner não organizaria vernissage para suas exposições. “As pessoas vêm me dar os parabéns. Parabéns por quê? Porque estou trabalhando?” Com jeitinho, a galerista Silvia Cintra parece ser a única ainda capaz de convencê-lo a cumprir esses quase deveres da profissão. “Virou emprego mesmo, né? Com regras muito bem definidas.” Em alguns momentos, Nelson fala assim e soa meio desolado. Lembra-se da série que fez com catálogos da Sotheby’s entre 1994 e 2006. Algumas obras acabaram vendidas pela própria casa de leilões, como se nelas não houvesse uma ironia ácida contra a instituição. Pergunta, com os ombros um tanto caídos, de que adianta questionar tanto o sistema se esse sistema arranja sempre uma forma de engolir o discurso e comercializá-lo? Mas quando o interlocutor está prestes a se juntar a ele na lamentação, o próprio Nelson muda o rumo da conversa. Ajeita a postura como um garoto na cadeira, cruza as pernas deixando aparecer improváveis meias laranja fluorescentes, ri um riso doce e conta que recentemente visitou a poderosa galeria Saatchi, em Londres, onde viu uma mostra coletiva de jovens artistas alemães bons demais. “Discurso maduro. Fiquei muito bem impressionado”. Ele, no entanto, se assustou ao se deparar com exagerada firmeza em gente tão nova.
É do tipo que desfruta tanto do esforço quanto da conquista. Mas nada que se aproxime de uma pregação zen-budista. É mais uma inquietação interior. Valoriza o erro e a ousadia. Repensa. Acima de tudo, arrisca e joga. Mente. Aos 80 anos, Nelson Leirner olha para as 100 mona lisas que acabou de fazer e não sabe se está satisfeito com o resultado.
A individual, intitulada Quadro a Quadro: Cem Monas, fica em cartaz até 20 de outubro na galeria Silvia Cintra, no bairro carioca da Gávea. Nelson levou oito meses para preparar a centena de peças, que, penduradas lado a lado, formam uma espécie de instalação. Impressas em seda pela técnica de silkscreen e emolduradas em caixas de acrílico, suas mona lisas exibem muitos acessórios adquiridos no Saara, o famoso camelódromo do Rio de Janeiro, cidade onde o artista paulistano vive desde 1997. São tiaras com pedrarias coloridas, batom, óculos, brincos dos mais variados, colares, máscaras, penas. Feitas uma a uma, as obras recuperam o trabalho artesanal: “O que me mandam de mona lisa modificada em Photoshop, você não imagina! Achei que precisava criar as minhas versões a mão.” Para realizar esse processo de banalizar o já banalizado, Nelson acumula muitos objetos em casa. Dono de uma trajetória extensa, que inclui trabalhos nas mais variadas linguagens, inclusive desenho, ele se consagrou como um mestre das apropriações. Confessa que tem de se controlar para não sair por aí comprando tudo o que vê pela frente. E isso não é modo de falar, não. Compra sapo de plástico, bibelô de louça, saco de lantejoula, estátua de santo, macaco de pelúcia, tudo sem uma lógica que consiga expressar. Acha bonito? Não necessariamente. Já tem uma ideia de obra na cabeça? De forma alguma. No prédio onde mora, reservou um apartamento inteirinho para guardar esses objetos. Funciona como um misto de depósito e ateliê, digamos assim. Também pode ser visto como um espaço de colecionador. Antes de tudo, Nelson coleciona coisas. Depois decide o que fazer com elas.
No caso das mona lisas, a inspiração veio do cinema. Dispostas em sequência, as peças remetem mesmo a takes de um único filme. Durante o período em que as produzia, o artista colocou na cabeceira principalmente longas e livros sobre o cineasta russo Andrei Tarkóvski. Quis que o trabalho esbarrasse em certa dose de loucura, o que explica a quantidade gigantesca de versões. “Mas não sei ainda se estou tão feliz porque meu filme saiu muito certinho. Tem a demência por causa da quantidade, mas não tem audácia. O efeito final ainda é muito estético.” Somaram-se a Tarkóvski as lições do filósofo francês Roland Barthes, que muito teorizou sobre fotografia e se tornou um craque em falar de uma imagem o tempo todo sem nunca exibir essa mesma imagem. “Barthes fez isso com a mãe dele. E eu fiz isso agora. Coloquei minha mãe em todas essas mona lisas.” A mãe de Nelson, Felícia Leirner, foi escultora.








Nossa muito legal , todas ficaram lindas , gostei de todas , ae Claudia podia dar um trabalho desse de fazer isso com a Monalisa
ResponderExcluirRs... o 7ºano está fazendo...rs
ResponderExcluirFiz um trabalho como esse na minha antiga escola. É muito diverito, todos fizemos coisas bem criativas. Adorei!
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